Virtue and a Sledgehammer: o duelo entre calma e destruição


Desde que Virtue and a Sledgehammer havia sido demonstrado no Day of the Devs do The Game Awards 2025, estive animado pensando em como aquele trailer era poderoso e como aquele jogo parecia tão lindo e… Bruto, ao mesmo tempo!
Pois bem. Me privei até da demonstração (não sou de jogar demos fora de eventos) e só fui atrás de testar o jogo na Brasil Game Show 2026, como você pode conferir na nossa análise. Foi um choque, de certa forma, ver como o jogo parecia dialogar comigo.
A premissa do jogo é muito simples: você controla Pratelle, uma mulher simples, de cabeça raspada, braço tatuado, um macacão vermelho, muito ódio e uma marreta que tirou do porta-malas de seu carro recém-capotado, onde o cadáver de sua mãe repousa. Ela está voltando para sua cidade natal, o pequeno vilarejo de Virtud, populada por autômatos com as memórias das pessoas com as quais Pratelle e sua irmã, Nina, cresceram juntas. Seu objetivo: destruir os autômatos, encontrar Nina e pará-la, pois foi ela que digitalizou a cidade inteira acreditando ter tornado seus moradores em imortais.

É muito curioso pensar em como Virtue and a Sledgehammer é um jogo simples. Você não interage com o mundo de maneira alguma além da marretada. É quase um jogo para o Nintendinho. Você tem, porém, diferença na intensidade dos ataques: apertar o botão faz Pratelle empurrar os inimigos com o cabo da marreta, uma leve segurada gera um golpe horizontal que pode ser repetido com um segundo comando, e segurar por mais tempo permite um golpe com força no solo, que gera uma onda de choque e é ideal para determinados tipos de inimigo.
Contar que existem inimigos diferentes dá a entender que Virtue acrescenta um pouco de complexidade em seu combate, mas não espere um jogo onde os inimigos apresentem um desafio de fato. Os robôs são, de certa forma, apenas uma atividade a ser feita enquanto caminha pelo mundo, procurando as memórias de Pratelle em cada ambiente.
As memórias são representadas por estátuas translúcidas de vidro espalhadas pelo cenário. Existem dois tipos de estátuas: as brancas, que desbloqueiam memórias instantaneamente, e as vermelhas, que precisam ser coletadas. A cada dez vermelhas, Pratelle é enviada para uma “dimensão mental”, onde pode escolher dentre algumas memórias especiais disponíveis apenas nesse ambiente.

Essas memórias servem para fundamentar a relação entre as irmãs e sua mãe, Merche. O trio, abandonado pelo homem da casa ainda quando as meninas eram pequenas, foi construindo uma relação cheia de camadas conforme os anos se passavam, elas cresciam, Merche envelhecia e adoecia. É nítido o amor que uma sentia pela outra, mesmo com atritos eventuais que muitas vezes escalonam para conflitos abertos.
Esse amor é o que nos permite entender também o que motiva Pratelle a estar convicta do massacre que realiza em Virtud. Você pode não estar exatamente investido em sua cruzada, mas com certeza vai entender os motivos que a levaram a essa conclusão.
Pratelle não está disposta a conversar com ninguém. Você pode literalmente encerrar qualquer diálogo com robôs segurando o botão da marreta e acertando uma pancada em quem está falando.

É um jogo que atua como uma rage room (até porque o cenário inteiro é quebrável, com exceção dos carros, o que me irritou definitivamente quando tentei detonar um para passar e fiquei dez segundos batendo sem resultado). Desconte sua raiva do mundo destruindo uma cidadezinha inteira!
No entanto, essa raiva e confusão acumulada (que é exemplificada pelos cortes extremamente súbitos e enquadramentos desconfortáveis nas cenas) contrastadas com a música calma e os flashbacks bucólicos tornam Virtue um jogo capaz de provocar muitos sentimentos. O vermelho é a cor base do jogo porque ele quer te deixar irado o tempo todo, enquanto os cenários serenos te mostram o que Pratelle perdeu.
E, quando Virtue te captura emocionalmente por meio de suas entranhas e coração, ele explode em seus momentos derradeiros em uma confusão de sentimentos. Confesso que chorei copiosamente na conclusão do jogo.
As sensações que tive quando vi o teaser trailer no fim do ano passado e todo esse conflito entre a calmaria e a violência se pagaram. Virtue não me surpreendeu positivamente porque eu já esperava um excelente jogo, como sempre espero dos títulos publicados pela Devolver Digital. Esse jogo me tocou onde eu não esperava que tocasse, e espero genuinamente que toque você também.
Esse texto foi escrito por Max Fernandes e editado por Iara Vilela





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