Punisher: a tradução bizarra do personagem para PlayStation 2
- Senhor Genérico

- 23 de jun.
- 5 min de leitura
Aviso: esse texto contém descrições gráficas de violência. Leia por sua conta e risco.
O Justiceiro é um personagem muito sem graça. Tá, isso é repentino, mas acho que é importante, antes de tudo, deixar claro nesse texto que eu não vejo Frank Castle como um personagem complexo, multifacetado ou um espelho de certas coisas, pois isso é algo recente.
Eu vejo o Justiceiro como muita gente decidiu vê-lo e, como seu novo especial no Disney+, Justiceiro — Uma Última Morte (2016), decidiu também: um homicida que existe como espelho da vontade de uma parcela privilegiada da sociedade que tem um anseio por matar pobre, que torce a realidade de uma forma doentia para tentar criar uma situação onde um homem como Frank seria necessário.
Certo, como isso se encaixa no Fliperama de Rua? Essa é uma redação de jogos, não? Pois esse episódio é praticamente um jogo de videogame ruim, que, por sua vez, me fez lembrar que o personagem TEM um jogo.

O jogo do Justiceiro teve consigo uma aura de controvérsia pois ele foi banido em vários países. Nele, a tortura é uma mecânica de gameplay corriqueira e é possível causar estragos substanciais nos seus inimigos por meio dela. Ao remover esse aspecto, notamos que ele é o que jogos de super herói tendem a ser: uma maquiagem em cima de outros títulos de sucesso do passado.
O lendário Max Payne (2001), obra que colocou a Remedy Entertainment nos holofotes e começou a sua estrada rumo ao sucesso e a aclamação popular, ganha uma roupagem onde o carismático ex-detetive se torna um sociopata incapaz de interagir com outros seres humanos sem ser por meio de perfurações e desmembramentos.
Vários personagens icônicos da “Casa das Ideias” fazem uma palinha. O resto é um third person shooter legalzinho, que não partilha da fluidez ou da inspiração em Matrix (1999) que o jogo de Sam Lake carrega, cujo principal aspecto memorável é o fato que você pode pegar qualquer superfície pontiaguda, ferramenta industrial ou outro objeto com risco de letalidade e aproximar o rosto de criminosos para obter informações, com uma “dolorosa” dedução de pontos ao eliminá-lo no processo, o que é insignificante.
Isso não é muito surpreendente, pois estamos falando da meiuca dos anos 2000: a era do “massavéio” estava firme e forte, houveram filmes do personagem naquele período e existia um fator “cool” nele. De transformar bocas de fumo em arenas de combate propositalmente cheias de objetos torturáveis e quedas propositalmente colocadas para arremessar pessoas a um zoológico se tornar o playground doentio e bizarro que apenas Frank Castle poderia fazer, esse jogo, de certa forma, pega com precisão o espírito das histórias do Justiceiro.

O personagem tem a sutileza de um javali ensandecido em uma cristaleira, a complexidade moral de um desenho infantil e a brutalidade desenfreada feita para fazer adolescentes acharem esse personagem a coisa mais legal do mundo e internalizar (mesmo que não faça real sentido) uma visão cínica e maniqueísta de vida de quando você é jovem.
O lance é que a Netflix cometeu um erro substancial: eles decidiram fazer esse pires ter profundidade. O seriado que surgiu a partir da participação genial dele na segunda temporada de Demolidor (2016) decidiu ir em uma rota diferente da grande maçaroca de histórias do Justiceiro: o foco no trauma e na questão da subvalorização humana proporcionada pelo exército dos Estados Unidos.
São duas temporadas de qualidade, que permitem que Frank seja um indivíduo atormentado, que sofre e que tem problemas de se relacionar com outros seres humanos, por mais que tente. Anos se passaram e Demolidor: Renascido (2025) criou uma situação onde finalmente poderíamos ver o Justiceiro fazendo algo unilateralmente positivo: brutalizar a Força Tarefa Anti-Vigilantes, o exército fascista do Rei do Crime que usava as caveiras que Frank leva no peito para agir como um aparato repressivo que mata, tortura e mantém em jaulas pessoas inocentes em Nova York.
O problema é que tudo isso foi jogado pela janela e o status quo se estabeleceu no
MCU. Uma Última Morte é sobre como Frank Castle simplesmente abraçou essa vida de vez (pela quarta ou quinta vez a esse ponto) e sobre como mesmo após vingar toda a sua família, ele volta para o lodo e isso é pra ser algo épico.

Então entram as palavras da canção “I Will be Heard” (2002) da banda de hardcore estadunidense Hatebreed, como se esse ato do Justiceiro — que por algum motivo bizarro estava bizarramente isolado do resto de Nova Iorque na segunda temporada de Renascido — devesse ser louvado como uma grande apoteose. O resultado: a mesma demonstração de violência que vimos no jogo de PS2, só que com os gritos ridículos de Jon Bernthal.
O episódio todo pode muito bem ser equiparado a uma fase do jogo: um setup absolutamente ridículo, com uma “onda de crime” acontecendo em um pedaço de uma cidade que está sob um governo fascista. Em nenhum momento temos contato com esse mesmo governo, que por sinal adora bater em pobre. Seguem-se várias sequências de combate onde o Frank vai triturando marginal, com até mesmo uma nova roupa, como uma “recompensa” para quem acompanha a história nos momentos finais do episódio.
Ao contrário de outras obras de herói, onde uma mudança de roupa simboliza um novo começo, uma evolução, ou uma abordagem diferente para suas ações, aqui é apenas o Frank voltando ao eterno tango com o propósito dele. Pelo menos no jogo tinha um grau de interação pra não se tornar completamente tedioso, isso sem falar que também tinham aparições de outros personagens importantes da Marvel que serviam de contraponto ao protagonista.
Infelizmente, esse episódio apenas consolidou uma coisa: o Justiceiro agora é a mesma coisa que ele é em todas as outras mídias, um avatar para um homem branco médio que odeia minorias se sentir satisfeito, pois temos um homem branco matando preto e pobre. Inclusive, é curioso que esse episódio tenha saído nas circunstâncias políticas que estamos, quase como se fosse solicitado um personagem que simbolizasse o ódio ao vulnerável, disfarçado de uma noção de “justiça”, a mesma noção que entope programas policiais e discursos de picaretas.

Existem análises sobre o personagem, como o Jon do Tralhas do Jon faz que buscam ressignificar o Frank e dar a ele uma cara e um propósito mais definidos, enquanto que do outro lado temos o Tavos, do Mimimídias, mostrando uma perspectiva muito mais crítica do personagem, mostrando que, apesar de ser raso, sem graça e desprovido de inspiração ou de elementos reflexivos, é possível extrair o que falar do Justiceiro.
Porém, uma coisa acaba ficando: estamos falando de um personagem insípido, desprovido de inspiração ou de outro elemento criativo, apenas existindo para projetar uma frustração regada a preconceitos, que agora tem um especial novo lançado no coração de um regime fascista. “Bem-vindo de volta, Frank”? Na verdade deveria ser “Vá embora, Frank”.
Esse texto foi escrito por Senhor Genérico e editado por Max Fernandes





Eu discordo O Justiceiro sendo um personagem suco dos anos 70 que vem na onde de Desejo de Matar e filmes de ação genéricos, filmes de ação onde a maior tese é que todos os problemas podem ser resolvidos com altas doses de violência pois, filmes de ação trabalham no âmbito da cartasse e da fantasia de poder, a fantasia de poder que todos os seres humanos tem em sua base. A base violenta do justiceiro pode ser a base de todo o publico que cria esse tipo de entretenimento e que deseja retirar seus desejos violentos, um fascínio voraz por esse tipo de personagem, mesmo motivo que o Kratos na primeira trilogia de GOW é tão amado. Sim, o Justiceiro é cruel…