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Forza Horizon e a Nubankização dos jogos de corrida

  • Foto do escritor: Senhor Genérico
    Senhor Genérico
  • 24 de abr.
  • 4 min de leitura

Atualizado: há 3 dias

Forza Horizon é estranho. Ele existe em uma encruzilhada esquisita nos jogos de corrida, que normalmente orbitam 3 pontos: a simulação, que busca transformar o jogador no mais próximo possível de um piloto, sem a parte de ser agraciado por uma família rica o suficiente que possa prover essa experiência no mundo real, o arcade fantasioso, onde pobres tartarugas são transformadas em mísseis teleguiados, como se a Fundação Projeto Tamar fosse desenvolvida por Tony Stark, e o arcade rebelde, onde a customização de veículos e a pilotagem é, em suma, um ato de rebeldia, com a polícia sendo seu principal inimigo.


Horizon é um jogo paradoxal, pois ele tenta, ao mesmo tempo, ser uma experiência sem a ousadia tradicional dos simuladores de corrida, mas também quer ser descolado e ligado com a “garotada”. É muito claro o objetivo de criar um evento que seja metade um campeonato de Turismo e a outra metade, um festival de música frequentado pelas pessoas mais básicas que você já conheceu, no pique dos caras que tatuam um leão na perna ou descolorem os pelos dos braços. Sim, aqueles caras.

O jogo incorpora nos jogos de corrida festivais meio Punk Rock Sertanejo | Imagem: Forza Horizon 5
O jogo incorpora nos jogos de corrida festivais meio Punk Rock Sertanejo | Imagem: Forza Horizon 5

O complicado é que Forza Horizon é MUITO DIVERTIDO… Ao menos, era. Sabe quando um colega de classe contava uma piada muito engraçada que, para tentar repetir o feedback emocional positivo, ele repetia até perder a graça? Bom, o jogo é quase isso. Na primeira experiência, a ideia de um festival de música com uma competição de automobilismo era interessante. O segundo jogo deu a esse evento um perfil itinerante - o que era muito maneiro - mas do terceiro em diante, o que nós tivemos foi o fenômeno que dá o título desse texto: A “Nubankização” dos jogos de corrida. Basicamente, a partir de Forza Horizon 3, o jogador ganha um cargo dentro da administação do Festival que, por sua vez, parece interessante. Mas, na realidade, o que esse jogo acabou fazendo foi embananar outros projetos também.


Em Forza Horizon 3, o protagonista é tratado com o maior percentual de mimos possível: sem desafios, sem obstáculos, apenas você criando evento após evento enquanto compete com seus amigos, ou com o registro de dados deles. Nada é um obstáculo, nada é uma força de oposição, nada é emocionante. Tudo parece o atendimento automatizado de um banco. O complicado é que isso começou a sangrar para fora dele, pois outras franquias permeiam o mesmo caminho: The Crew, que era uma história bem a lá velozes e furiosos, com crime e ilicitudes, acabou se tornando um campeonato nos moldes do spin-off de Forza, Test Drive, DriveClub, Grid, tudo ficou limpinho demais, higienizado demais, desprovido de qualquer emoção e diferença, homogeneizando o gênero no caminho. Todos os jogos ou querem ser simuladores a lá Gran Turismo - mas sem o  charme - ou eles querem ser Horizon. Um mar de jogos insossos com eventuais exceções aparecendo aqui e ali.


Daí eles anunciaram Horizon 6 e, de quebra, revelaram ao mundo que o ambiente que os jogadores mais queriam explorar no festival finalmente seria jogável: O Japão. Um dos berços do automobilismo, símbolo da expressividade artística nas pistas e um dos eixos mais fortes na mente das pessoas quando falamos de carros ou customização. Todo mundo queria o Japão, eu mesmo, que tava de saco cheio de Horizon, fiquei empolgado. Qual era a cereja do bolo? O jogo voltaria a ter o sistema de progressão como no primeiro jogo, colocando de novo o jogador no chão e fazendo-o construir sua carreira rumo ao campeonato do festival. Eu me iludi, achei que dadas as circunstâncias e importâncias do Japão pro automobilismo, esse seria um jogo diferente.

A ideia da franquia ter como novo cenário o Japão animou a fã-base | Imagem: Forza Horizon 6
A ideia da franquia ter como novo cenário o Japão animou a fã-base | Imagem: Forza Horizon 6

Dito isso, mais conteúdos do jogo foram revelados, e o que poderia ser um sublime recomeço, se tornou apenas a mesma lavagem de anos passados. Um mapa que é 90% off-road, conectado por várias estradas, uma área urbana ínfima, uma customização pífia. Isso era o que já estávamos acostumados com essa franquia e, assim como uma onda sônica, ela rompeu a ilusão de muitos. Claro, ainda tem gente empolgada, porém difícil manter quando apresentam o mesmo jogo que eu experimentei em 2012, em 2014, em 2016, em 2018 e em 2021. Anos a mais de espera, todo um floreio, mas absolutamente nada de novo.


O mesmo esforço mínimo, os mesmos modelos de carro dos tempos de Forza Motorsport 2, o mesmo tipo de jogo, com uma skin rodeada de pétalas de cerejeira. Aí entra a segunda parte da Nubankização: O absoluto nojo que esse jogo traz. Assim como para lidar com qualquer cartão de crédito é preciso um investimento gigantesco de tempo e muita paciência, em Horizon é convertido em um grinding lento e chato pra aumentar uma coleção de carros onde pelo menos 70% deles é pouquíssimo customizável, e caso haja a SORTE de ter alguma coisa na linha de uma arte maneira para envelopar o veículo, você está apenas passando um tempo absurdo aumentando números, como o mesmo tempo necessário para tentar encontrar um acordo bacana pra quitar uma dívida.


Eu adorei muitas das horas que dediquei a Forza Horizon e ainda quero ter a chance de jogar a versão de Xbox One do Horizon 2, a única que eu não joguei. Porém, ao mesmo tempo que eu gosto dela, eu quero nunca mais ver essa franquia de novo. É sempre a mesma coisa, os mesmos modelos, as mesmas experiências com uma simples troca de skin. A magia do festival se foi e não importa o quanto que eles tentem atender a vontade do público, nada vai mudar. A própria Playground está com os olhos e ouvidos virados para algo maior (e mais interessante). Porém, no processo, uma série de jogos de corrida que deixaram uma marca na história foram de “camisa da saudade eterna”, e não vai ter Serasa que vai ajudar Forza Horizon nesse caso.


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