Colheres, dados e estabilizadores: minha vida com TEA e Citizen Sleeper
- Allana Emilia
- 18 de mai.
- 3 min de leitura
Atualizado: 20 de mai.

Após receber o laudo de Transtorno de Espectro Autista (TEA), percebi que estava pesquisando com bastante frequência protocolos de resposta a situações de desconforto para que a vida pudesse se tornar menos sofrida, de forma que eu evitasse ao máximo o ciclo de burnout que me parecia eterno.
Durante essas pesquisas me deparei com a Teoria das Colheres, criada por Christine Miserandino para explicar suas demandas energéticas para outras pessoas, já que ela convive com lúpus. Funciona mais ou menos assim: cada ser humano possui uma gaveta de colheres, que são medidas de energia para realizar ações. Por exemplo, acordar pode custar uma colher, falar ao telefone duas colheres, e trabalhar quatro colheres.
O insight interessante de Christine foi relativizar e modificar, de acordo com sua rotina e experiências, a quantidade de colheres utilizáveis ao longo do dia. A autora, aplicando à sua demanda diária, percebe um descompasso considerável entre o que ela tem disponível com o que é considerado a norma, ou o senso comum.

Logo, ao organizar seu dia e suas tarefas, ela leva em consideração essa quantidade, tentando evitar uma demanda que seria impossível de cumprir. Essa prática, por sua vez, culmina em uma relação mais harmoniosa com a vida, já que pessoas com necessidades específicas enfrentam esse desafio à parte.
Embora essa lógica seja bem interessante, eu ainda sentia dificuldade de organizar minha rotina desse jeito, já que essa relação com a energia não dava conta de questões importantes para mim como imprevistos e reajustes de rotina. Coincidentemente, foi nesse período que comecei a jogar Citizen Sleeper. E larguei.
Pode parecer um preâmbulo enorme, ou uma tangente gigante se comparado aos outros textos do site – principalmente se o foco do texto for o abandono de um jogo –, mas talvez aí que esteja a mágica dele. Mesmo sem ter zerado, Citizen Sleeper me causou um impacto tão visceral que me afastei, mas penso nele constantemente.

O que me impactou nesse caso não foi exatamente a narrativa – vi muito pouco para me apegar aos personagens. Foi, na verdade, a mecânica de sobrevivência do Sleeper, seu personagem, um robô operado por uma emulação de um cérebro humano que, para a surpresa de ninguém que leu o texto até então, se assemelha muito à sobrevivência de pessoas com necessidades específicas.
O sistema depende de três coisas: dados, seus resultados e as cores associadas a esses dados, além dos testes e da barra de condição, refletem de forma elegante isso que eu chamo de sobrevivência do Sleeper.
Por sua vez, as rolagens de dados indicam a possibilidade de sucesso do robô para realizar atividades ao longo do ciclo, que é o equivalente a um dia de jogo. Essas atividades, por sua vez, possuem riscos, que vão desde o mero gasto do dado (lembra um pouco a colher, não?) até um impacto na condição e na integridade do corpo do Sleeper. É importante saber que o robô é um corpo em constante deterioração, eternamente dependente do que o jogo chama de estabilizador, um componente farmacêutico elaborado como uma forma de exercer controle sobre os sleepers e suas vidas.

Ao unir os três fatores, temos que considerar a todo ciclo sua condição, as tarefas - e seus riscos - e a quantidade / resultado dos dados para aquele dia. A condição influencia a quantidade de dados disponíveis, que, por sua vez, associada aos resultados, implica resolver (ou não) as atividades que aparecem no dia.
Caso a condição do Sleeper se deteriore muito, alguns dos dados ficam inativos, o que complica a execução das atividades naquele ciclo. Para recuperar Condição, a princípio, apenas comprando o estabilizador, que aos poucos encarece e complexifica ainda mais essa dinâmica de existência.
A aparência transacional da mecânica não passa despercebida quando lida por uma PNE. A dependência de um (ou vários) remédios para manter o corpo funcionando, a sorte/ azar no resultado dos dados e a crescente quantidade de atividades a ser feitas acrescenta um grau de realidade a mais na história, o que me atingiu profundamente ao se relacionar de forma muito íntima com a minha vida.
Esse texto foi escrito por Allana Emilia e editado por Max Fernandes


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